sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Hoje: reflexo de ontem


Andei observando a vida alheia. Não, não é nada disso que vocês estão pensando, nada tem a ver com fofoca – que eu repudio – mas com observações que andei fazendo para chegar a uma conclusão sobre determinado assunto. Eis a minha análise.

Creio que a velhice é - ou deveria ser - uma das melhores fases da vida. Depois de termos criado nossas famílias, de termos trabalhado anos a fio e construído um pequeno – ou grande, como queira - patrimônio que nos garanta sustento com tranqüilidade, depois de termos angariado toda experiência e conhecimentos possíveis, depois viajar mundo a fora e de fortalecer laços de amizade no decorrer dos anos, depois de tudo isso, a vida deveria ser só alegria. Aposentadoria e rendimentos no bolso, viagens e excursões com a galera da melhor idade, família reunida nos fins de semana, dias para descansar ou se dedicar a pequenas tarefas domésticas, ou ainda a terapias ocupacionais. Esse é o perfeito retrato da velhice.

Mas não é o que sempre costumamos ver.

Para certas pessoas a velhice chega como um grande fardo do qual elas estão loucas para se livrar. A morte parece ser a válvula de escape. Tudo que tinha para ser feito já o foi e os dias que restam são movidos apenas por lembranças nostálgicas e lágrimas pelo que se perdeu. O prazer de viver não existe porque o vigor se foi e nada mais é como antes. As doenças próprias da idade vêm e, com elas, a depressão e o enfado que geram outras doenças e complicações das que já existem. As falas são norteadas de suspiros e ais, e os lamentos são constantes. Será impossível ser feliz na velhice? Essa questão me perturbou tanto que me levou buscar respostas. E eu as encontrei.

Por centenas de vezes ouvimos dizer que as pessoas colhem o que plantaram, e nem sempre fazemos caso dessa verdade. Vivemos nossas vidas sem nos preocupar com os outros – e os outros nem precisam ser estranhos, podem ser a nossa própria família. Tomados pelo egoísmo, passamos a vida sedentos de TER cada vez mais e SER cada vez menos. E quanto mais se tem, mais se gasta e nada se guarda. O importante é viver o hoje; o amanhã a Deus pertence. Nossos relacionamentos são superficiais e baseados em interesses. Amigos? Quem precisa deles? Pessoas que freqüentem nossas casas? Ah, receber dá muito trabalho, melhor aderir ao individualismo, “cada macaco no seu galho”, isso evita problemas e tarefas desnecessárias. Em casa o diálogo não existe. Gentilezas? Jamais, isso gera o desrespeito dos filhos para com os pais. As conversas se limitam ao necessário e o que passa disso, normalmente são discussões acaloradas, frutos de algum desentendimento, isso quando o clima não piora ao ponto de colocar em dúvida a civilidade. As promessas não são cumpridas. Agrados não são feitos. Cobranças sim. Não existem sorrisos simpáticos. Zombeteiros sim. Rebeldia. Desentendimentos. A guerra dos sexos prevalece e, entre um casal onde deveria haver parceria, há competitividade e desrespeito. Amor e compreensão não existem. Autoritarismo e anulação sim.

Cultivar uma vida dessas não pode gerar algo bom no futuro. Idosos necessitam de atenção, carinho, ajuda. Mas como conseguirão se isso não foi ofertado por eles quando jovens? Filhos que não aprenderam a ser gentis, amorosos, cuidadosos e carinhosos, não terão nada disso a oferecer, ainda que seja sua obrigação. E é só isto que representará para eles o cuidar dos pais: uma obrigação, totalmente desprovida de prazer. Nessa fase da vida, onde estarão os amigos com quem dar boas risadas das experiências vividas juntos se elas nunca existiram? Onde estarão as economias para uma sobrevivência digna e independente se todos os ganhos foram desperdiçados ou não houve preocupação e planejamento para o futuro? Não haverá família ou amigos por perto com quem compartilhar, se suas vidas mal vividas só geraram amargura capaz de afastar a todos de si.

Uma velhice feliz significa colher os frutos de toda uma vida semeando amor, amizade, cuidado, respeito, atenção, companheirismo, hospitalidade, bons relacionamentos e, acima de tudo, intimidade com Deus. Não consigo compreender que, pessoas que se dizem tementes a Deus e próximas a Ele, cheguem a essa fase sem alegria de continuar vivendo. Sei que estar com Deus é muito melhor do que estar neste mundo, mas a vida é uma dádiva do próprio Deus e, enquanto Ele a conceder a nós, devemos vivê-la da melhor maneira possível, agradando-O acima de tudo.

Todo este relato causa dor ao meu coração, mas, ao mesmo tempo, é um grande exemplo para que eu escolha um rumo diferente. Quero cultivar o bem viver. Quero que meu lar seja o melhor lugar do mundo, que meu marido me ame e seja amado por mim, a despeito das diferenças. Quero que o respeito, a admiração e o amor, acima de tudo, sejam constantes entre nós. Quero que nossos futuros filhos vejam em nós exemplos a serem seguidos, que nos amem e nos respeitem, independente se suas opiniões divergirem das nossas, e que eles sintam segurança em manifestá-las, ainda que preterindo-as à obediência. Quero multiplicar, triplicar, quadruplicar os amigos! Que eles sejam pilares onde possamos nos apoiar quando nossas forças estiverem se esvaindo. Quero colher, na minha velhice, os doces frutos de uma vida consagrada a Deus, que valeu à pena ser vivida e que ainda valerá até o último suspiro.

P.S.: Este post é fruto de uma situação real que tenho presenciado e sobre a qual venho querendo escrever a tempos. Ele foi inspirado na frase de um poema que li no blog da Julie e que adaptei como título para o texto.
Imagem pesquisada no Google.

18 comentários:

Adelino disse...

Célia, antes de tudo meus parabéns pelo seu aniversário ontem.
E mais parabéns ainda pelo excelente post que você elaborou para hoje. Eu acho que existem as seguintes categortias, em se tratando nem tanto da idade, mas do comportamento diante dela:
- Velho, velho-velho, jovem, jovem-velho, velho-jovem. Tudo depende de como encaramos a chegada da idade, e principalmente, como os que nos cercam nos tratam.
Grande abraço, e ótimo final de semana.
Adelino

Victor Fontana disse...

Grande post!

Para quem se interessa pelo tema, recomendo o clássico Cícero. "Saber Envelhecer". O texto data da Roma Antiga, mas permanece brilhante e atual.

Deus abençoe a todos e a vc tbm, Célia.

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá amiga belíssimo texto... Adorei!!!
Bom fim de semana.
Fernandinha

Irmão Habacuque disse...

Que belo texto! Que Deus te abençoe por escrever assim tão bonito! Eu que já não sou mais um moço fico emocionado de ver pessoas novas pensando desse jeito.

Luis F disse...

Célia,
Que grande post, bonito e reflectivo texto, um belo momento sem dúvida.

Li e reli com muita atenção e deixo-te os parabens pelo texto.

Com amizade
Luis

Mogul disse...

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Aninha Pontes disse...

Célia meu bem, uma bonita análise.
É mesmo bem por aí. Colhemos o que plantamos.
Depende muito da família que fizemos.
Se somos egoístas, se olharmos apenas para o próprio umbigo, não vamos criar pessoas que olhem de lado, que dê a mão às pessoas, que vá se preocupar com os seus velhos.
Claro que sabemos existir as aberrações da natureza, pessoas desprovidas de sentimentos, sem que saibamos o porquê.
Mas temos que fazer por nós mesmos enquanto temos forças para isso, depois é só colher.
Sou uma pessoa muito feliz, já comecei a colher o que plantei, e confesso, o resultado tem sido bom.
Um beijo
Parabéns pelo post.

Jannine L'Amour disse...

Não acredito que tb perdi seu aniversário :(...mas o desejo que Deus te abençoe ricamente serve para todos os dias da sua vida! Este post é super bonito e sensível, concordo com vc, eu não sou casada, convivo muito com pessoas bem mais velhas, mãe, tia, para vc ter idéia ontem meu irmão fez 54 anos. E sempre brinco com uma amiga que como encalhei vão ser meus amigos que vão ter que cuidar de mim, e eu deles :). Mas concordo com tudo que vc disse, por enquanto envlehecer para mim não tem sido um problemo e confio em Deus que nunca será. Um beijão bem grandão.

Taty disse...

Concordo com vc. Por isso me esforço pra plantar o melhor q posso hj pra colher o melhor q puder mais tarde.
Uma ótima semana pra vc!!
Um beijo!!

Georgia disse...

Célia, que texto magnifíco vc escreveu.
Vc nao pode imaginar quantos temos por aqui e eles andam de bicicleta, dirigem seus carros, sao tao independentes...

Grande beijo

Flávio Rod. disse...

É a verdade dramatizada da forma mais eloqüente!

Simone corpomente e artes disse...

Oi Célia,
primeiro PARABÉNS (atrasado)pelo aniv.
E concordo gostei do seu post,a velhice ser boa ou não depende de vários fatores, e principalmente do hoje, oq plantarmos hoje é o q colheremos amanhã.um bj. Simone.

Casamento feliz disse...

Vc escreve tão bem , parabéns !!!

Beijos

Izaias Balbino disse...

MTO LEGAL ESTE POST! FILOSOFIA DA MAIS ALTA QUALIDADE. DEPOIS Q A GTE FAZ 40, COMEÇAMOS A REFLETIR SOBRE ISSO MESMO: COLHEMOS O Q PLANTAMOS. TBM TENHO UMA EXPERIÊNCIA PESSOAL Q REFLETE EXATAMENTE SEUS PENSAMENTOS. JESUS TE ABENÇOE!
Pr. Izaias

Zulkijora disse...

See HERE

Andréia disse...

muito bom o post! eu gostaria muito de evenlhecer com saúde sabe? é minha maior preocupação... com saúde vou poder viajar, exercitar e não dá tanto problema assim para os outros ... mas acho que a base de tudo é o amor msm, se vc ensina seus filho a amarem não importa os problemas, ajudarem uns aos outros nada será dificil..

beijos

vivendo disse...

Oi, Celia!
Minha mãe sempre diz isso de que a gente colhe o que planta...Com algumas exceções acho isso bem verdadeiro...beijo, Vivi

Celia Rodrigues disse...

Olá, Adelino! É um prazer recebê-lo, sinta-se à vontade por aqui. Obrigada pelas felicitações. Acho que 90% do que ocorre na velhice é resultado do que cultivamos durante toda a vida. Os outros 10% ficam por conta dos outros. É muito bom mirarmos nos exemplos das pessoas, sejam eles bons ou ruis. Isso nos impede de repetir os erros. Um abraço!

Oi Vitctor, obrigada! Vou procurar ler essa obra, realmente é um assunto que sempre será atual, as pessoas nunca deixam de envelhecer e os problemas sempre são os mesmos. Um abraço!

Olá Fernanda! Seja bem-vinda! Legal que tenha gostado. Um abraço!

Habacuque, seja bem-vindo ao prisma! E obrigada por achar que escrevo bem, rsrs. Espero que volte mais vezes. Um abraço!

Luis, muito obrigada! Fico feliz que meus escritos façam bem às pessoas e os levem à reflexão. Um abraço!

Oi Aninha! É bom saber que sua família lhe retribui o que você ofereceu a ela. Aí está uma prova de como o ato de cultivar o bem viver se volta a nosso favor. Grande beijo, fique com Deus!

Oi Jan! O importante é fazer a diferença (positivamente) no meio onde estamos inseridos, seja em família ou junto aos amigos. Os frutos disso sempre serão saborosos. Meus irmãos também são todos bem mais velhos que eu, tenho um irmão e uma irmã que também já passaram dos 50. Grande beijo, querida!

É isso aí, Taty. A idéia é essa mesmo! Grande beijo!

Geórgia, sei que a Europa é um continente “idoso”, ou seja, grande parte da população já nessa fase, devido a um maior controle de natalidade. O legal é que em países desenvolvidos a mentalidade é outra, tanto das pessoas para com os velhos, quanto a deles próprios. Isso é algo muito positivo. Beijo, amiga!

Oi Flávio! Parece que quando escrevemos com o coração as palavras traduzem exatamente o que queremos dizer. Abraço!

Olá, Simone! Obrigada pelas felicitações! Preparar-se com antecedência para encarar o amanhã ajuda bastante. Que Deus nos abençoe para que façamos o que é certo.

Fabi, obrigada! Você é muito gentil. Grande beijo!

Izaías, que bom que gostou do post. É triste presenciarmos situações assim, mas como eu escrevi, servem para que redirecionemos o nosso rumo em tempo. Mais triste ainda é quando não podemos fazer muito para mudar o que já está decadente. Grande abraço!

Andréia, acredito que uma vida bem vivida possa até mesmo nos poupar de muitos problemas futuros de saúde. Claro que há doenças que não se podem evitar, mas uma pessoa amada pela família e pelos amigos jamais ficará desamparada, mesmo nma situação assim. Envelhecer com saúde é ótimo, mas envelhecer com amor é melhor ainda. Beijo!

É Vivi, até nisso existem exceções. Mas é mais prudente levarmos em consideração a regra. Beijinho, amiga!